26 julho 2007

Costas com costas

Era amor. Foi amor desde o início. Daquela apresentação tímida de fugida. Da segunda apresentação, formal, comedida e separada por uma enorme mesa. Dos olhares curiosos, das palavras que eu ia atrapalhando nos lábios. Das conversas soltas, agarradas a gargalhadas. Daquele convite, daquela noite. Das promessas que fiz e tu ouviste. Das juras que me fizeste. Beijos... sim, também foi amor nos beijos. Nos lábios mordidos e nos caminhos que namorámos. Nos jantares e nos almoços, nas refeições que não fizemos, nas noites de música e dança estridente.

Foi só aquele amor que soubemos amar. Amor duro. Amor amargo e destrutivo. Amor que não podíamos exigir frente a frente, nem lado a lado. Porque era demasiado. Porque era gentil como o fogo, doce como a pedra. E quebrou-nos outra e outra vez. Sem pudor. Sem pena. Sem a clemente rudeza do profissional. Até percebermos que só nos conseguíamos amar de outro modo. Do nosso modo. Triste e deturpado. Violentamente errado. Bruto, sem um olhar. Estúpida para o Mundo. Mas foi o nosso modo de amar. E era amor.

05 julho 2007

Acabar?

Sinto na pele o vento molhado, salgado, azulado. Um sol que me atinge com meio dia de céu sem nuvens. Sinto na verdadeira acepção do sentir. De tocar e cheirar, pisar, abraçar e morder. Como se houvesse outra forma de sentir. Como se fosse diferente a pele empolada de uma queimadura e uma lágrima de traição. Ou um tornozelo inchado e um lábio tremente.

Eu não tenho dois sentires. O vento que me embate, o sol que me empurra, o amor que me preenche. Sinto-o no peito, em cada batida cardio-muscular. Sinto-o de sentir, de prazer e sofrer, de quente e frio, de duro e macio.

E queres saber se pode acabar? Um sentir assim? Que me incha de vida e se transpira em mim por poros incapazes de o suster? Deixarei algum dia de sentir o sol? O vento?... Pois se tal dia se atrever e chegar, dele será o acabar.